O TEIMOSO
Bastos Tigre (Recife, 12 de março de 1882 — Rio de Janeiro, 1 de agosto de 1957)
"Como é teimoso o Fernando!
Com razão ou sem razão,
Teima o danado, e teimando,
Nunca muda de opinião.
Nasceu teimando, o teimoso,
E, teimando, há de morrer.
Nem por artes do tinhoso
Dá ele o braço a torcer.
Saiu, certa vez Fernando
A passeio com o Janjão.
O sol estava escaldando;
Era a força do verão.
A pé, três horas marcharam
Naquele infernal mormaço,
E os dois afinal, pararam,
Cheios de sede e cansaço.
-- Um pouco mais caminhemos --
Diz Fernando --, que ali perto,
Água bem fresca teremos
No oásis deste deserto.
E ele apontava com o dedo
Leve mancha esbranquiçada,
Junto de um denso arvoredo,
Além, na curva da estrada.
Mão em pala, ao longe olhando,
Diz Janjão: -- Água? Não creia...
Repare bem 'seu' Fernando,
Aquilo é uma boa areia!
-- É água! Fernando insiste.
-- É areia, repare bem.
E Janjão, de dedo em riste,
Aponta e insiste também.
-- É água, estou mais que certo!
-- Pois bem -- propõe o Janjão --,
Vamos olhar mais de perto,
Para ver se é areia ou não.
E puseram-se a caminho,
Marchando na estrada ardente.
(Já, da mancha bem pertinho,
Vê-se a areia, claramente).
Mas o Fernando ainda teima!
-- É água, é água, Janjão!
O amigo por fim se 'queima',
Dá o estrilo e com razão.
Com tanta teima irritado,
Sobre a areia se abaixando,
Janjão apanha um punhado
E atira-o sobre o Fernando.
Mas este, todo se encolhe
E grita, avançando a mão:
-- Estou suado, não me molhe,
Não me molhe 'seu' Janjão!"
(Bastos Tigre. Antologia poética, v. 1. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1982, p. 243-244.)
Ursula Hegi (1946-2026)
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German-born American author Ursula Hegi has passed away; see, for
example, the obituary in *The New York Times* (presumably paywalled).
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